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“É no
ventre invisível da eternidade que Maria Desgraça, mãe das dores e das escolhas
que ferem, se desfaz de seu manto de luto.
Ela
caminha entre os ecos dos que renascem como cinzas que se recusam a se apagar.
Aos pés do tempo, ela redime os que ousaram cair, mas dos escombros de seus
próprios erros é que se ergue à luz.”
Testemunho de uma N’ganga
Maria Desgraça, pra mim, não é
só uma entidade. Ela é a força que chega quando
tudo desaba. É o grito no meio do silêncio, o espelho que me obriga a encarar o
que sou, e o que ainda escondo. Ela não promete caminhos
fáceis, mas me ensina que o poder nasce quando eu olho o caos de frente e
escolho continuar.
Maria Desgraça é a mão que me
levanta no escuro, mas só se eu estiver disposta a caminhar por dentro de mim
mesma.
Ela exige verdade.
Ela exige entrega.
Ela me mostra que a queda é
parte do renascimento, e que só vence quem encara seus próprios demônios com
coragem. Com ela aprendi que a
destruição também é criação; e que, às vezes, é preciso perder tudo para me
encontrar de novo.
Maria Desgraça é o caos que
cura, a ferida que desperta, a dor que me transforma. Ela é o meu reflexo quando
finalmente aceito ser quem eu sou.
N’ganga Kundandu wa Maria
Desgraça.
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O Sagrado Feminino, pela força da Kimbanda
O sistema organizacional com base no Sagrado Feminino, em
tempos antigos, possuía capacidade e sabedoria de equilibrar as forças da
criação, promovendo a equidade entre os seres.
Sentindo-se submetido a subserviência da mulher, o sistema
patriarcal trabalhou intensamente para estabelecer a hegemonia masculina,
legando ao sexo feminino os deveres de procriar, satisfazer os prazeres do
homem e cuidar da prole.
Esse processo foi intensamente implementado com o advento
do cristianismo, cuja igreja, por razões políticas, subjugou a capacidade de
resiliência harmonizadora da mulher.
Representando essa poderosa força procriadora subestimada,
apresentaremos a pombagira Maria Desgraça como protagonista deste compêndio,
cujo propósito será apontar as mazelas recorrentes de uma sociedade arcaica e
decadente, dominada pelo patriarcado.
Nesses sistemas, a espiritualidade era vivida de forma
cíclica, intuitiva e conectada com a natureza e regida pela potência da Mãe
Terra, da ancestralidade feminina e dos mistérios da vida e da morte.
Maria Desgraça emerge das encruzilhadas da existência como
um arquétipo da mulher violentada, rejeitada e silenciada, que transmutou dor
em poder. Sua “desgraça” não é fraqueza, mas recusa: recusa a se moldar aos
padrões impostos, a aceitar os papéis que lhe foram atribuídos, a calar sua voz
diante da opressão cotidiana. Ela veste o nome que lhe deram e o transforma em
coroa, em lança, em riso debochado diante da hipocrisia moralista.
Na Kimbanda, Maria Desgraça é grito e profecia. É guardiã
das margens, onde habitam aqueles que o sistema insiste em marginalizar.
Sua presença é um lembrete de que o sagrado não reside no
centro hegemônico, mas pulsa nas bordas, nos corpos dissidentes, nos desejos
proibidos, nos gestos de rebeldia e amor próprio.
Este compêndio será, portanto, um altar erguido à força que
insiste em existir. Um testemunho da potência revolucionária do Sagrado
Feminino quando encarnado na figura de uma Pombagira que não pede licença, que
não suplica salvação — mas que oferece caminhos, atravessamentos e verdades que
só podem ser compreendidas com o corpo inteiro.
Na Kimbanda, frequentemente incompreendida ou
estigmatizada, reside uma força que pode ser canalizada para esse resgate do
feminino ancestral. A Kimbanda carrega em seu ventre entidades que transitam
livremente entre as dimensões, que se manifestam entre luz e sombra sem negar
nenhuma das partes do ser.
Pombagira é a expressão máxima da força feminina livre,
sensual, curadora, justa e potente.
Pombagira da kimbanda não se submete. Ela ensina. Ela cura.
Ela vinga. Ela transforma.
O resgate do Sagrado Feminino pela força da Kimbanda é
também uma revolução espiritual: não se trata de voltar ao passado idealizado,
mas de relembrar os códigos esquecidos do corpo, da terra, da magia e da
ancestralidade. Trata-se de reconfigurar estruturas onde o feminino foi
silenciado, demonizado ou objetificado e devolver-lhe sua centralidade como
eixo criador e sustentador da vida. Ao
contrário das moralidades dualistas que tentam separar o sagrado do profano, a
Kimbanda compreende que é no entre, no cruzamento, na encruzilhada que a vida
pulsa em sua forma mais autêntica. Pombagira não representa apenas o feminino
sensualizado; ela é a ancestral que guarda as dores da mulher traída,
abandonada, violentada e que, ao mesmo tempo, ri, goza, dança, seduz e cobra
justiça com a mesma intensidade.
É através de sua presença que compreendemos que o Sagrado
Feminino não é passividade, pureza ou doçura idealizada. Ele é poder de
criação, sim, mas também de destruição, tal como a própria natureza. Ele é o
direito ao prazer, ao corpo, à palavra. Ele é memória e denúncia. Ele é
escândalo para os olhos que só aprenderam a ver o mundo por lentes patriarcais
e colonialistas.
Na figura de Pombagira Maria Desgraça, essa força se
radicaliza: ela não busca aceitação nos moldes sociais. Ela escancara a
hipocrisia, destila veneno contra a opressão e oferece consolo às filhas e
filhos da dor. Ela é cura através da ira. É amor próprio vestido de salto alto
e gargalhada. É a entidade que se recusa a ser domesticada e, por isso, assusta
tanto quanto liberta.
O resgate do feminino ancestral através da Kimbanda não é
um retorno romântico ao passado. É uma revolução espiritual encarnada,
encruzilhada e insurgente. É olhar para Maria Desgraça e reconhecer nela o
espelho de todas as mulheres que ousaram viver para além das regras impostas. É
ouvir sua voz nas madrugadas da alma e compreender que há sabedoria na ferida,
beleza no caos, e justiça no riso que desafia o mundo.
Esse resgate passa por reconhecer a espiritualidade como
prática encarnada, onde o corpo é templo e portal. Passa por honrar as Exus
mulheres, as Pombagiras e as entidades que falam com voz própria, que protegem
e libertam, que desafiam estruturas patriarcais inclusive dentro dos próprios
cultos afro-brasileiros.
Por isso, resgatar o Sagrado Feminino pela Kimbanda é,
sobretudo, um ato de coragem. É olhar para o mistério sem medo, é reverenciar a
força do útero, físico ou simbólico, como centro de criação e destruição, tal
como a própria Kimbanda ensina.
Este é um verdadeiro chamado de revolução interior e
coletiva.
O nome já é um manifesto. Maria, figura arquetípica da
maternidade e da dor sagrada, aliada ao epíteto “Desgraça”, subverte
completamente o lugar de submissão ou piedade. É uma entidade que renasce da
exclusão, do abandono e da violência para reivindicar poder.
A capacidade de mergulhar nos infernos representa a
disruptura da dogmatização em uma jornada iniciática, uma descida aos aspectos
mais ocultos do próprio ser, rejeitados e temidos da psique coletiva e
individual. Uma espécie de catarse e se refere à liberação emocional por
meio de uma experiência transformadora. No espiritismo, se baseia na proposta
de que os seres humanos possuem emoções reprimidas que precisam ser liberadas
para que possam se curar e evoluir.
O sagrado feminino, que foi roubado, subjugado, escondido,
trancafiado, pelas forças patriarcais, coloniais, ou religiosas que
historicamente suprimiram saberes ancestrais ligados ao corpo, à terra, à
intuição, à sexualidade e à espiritualidade feminina, aqui se manifestará em
reinvindicação ao posicionamento que é seu por direito.
Não se trata de uma reconciliação com o sistema que o
silenciou. Trata-se de uma insurreição espiritual. A memória dessas sabedorias
não foi apagada, apenas adormecida nos corpos das mulheres, nas bocas das
benzedeiras, nas danças das Pombagiras, nos rituais das curandeiras e
feiticeiras, nos cantos das que rezam com ervas e sangram com dignidade. O que
o patriarcado tentou extirpar com fogueiras, cárceres, cruzes e diagnósticos
psiquiátricos agora retorna como tempestade, como um útero em erupção.
Este resgate não pede licença. Ele ocupa. Ele exige. Ele
cura. Ele destrói aquilo que foi construído sobre a mentira da inferioridade do
feminino. Cada palavra aqui escrita será um feitiço, um tambor, uma oferenda
aos pés de Maria Desgraça e de todas aquelas que foram chamadas de loucas,
putas, bruxas, desgraçadas e que agora erguem seus nomes como bandeiras de
poder.
O Sagrado Feminino aqui não será mais domesticado. Ele se
manifesta como grito, como dança, como orgasmo, como morte e renascimento. Ele
desafia não apenas a estrutura religiosa, mas também as formas de pensamento
que dissociam o espírito da carne, a alma do sangue, a luz da sombra. Ele é inteiro.
E, através da Kimbanda, ele encontra sua trilha de volta, pela mão das
Pombagiras que não se ajoelham.
“E eu,
Maria Desgraça, adentro as mais densas camadas do inferno para resgatar os
segredos do sagrado feminino, com a força da kimbanda, de onde foi trancafiado
e subjugado, em detrimento da evolução de toda espécie humana,
independentemente do gênero.”
Pela força da Kimbanda, porque sim.